Povos do Parque Nacional do Xingu decidem ficar em quarentena como prevenção ao coronavírus

Só no Parque Nacional do Xingu, no nordeste do estado, vivem cerca de 7 mil indígenas, distribuídos em mais de 100 aldeias e 16 etnias

Em 19/03/2020 07:50:00 na sessão Cidades

o Mato Grosso, as principais associações indígenas e indigenistas do estado anunciaram nesta quarta-feira (18) que suspenderam por 60 dias as atividades externas nas aldeias desde o início desta semana por causa da pandemia do coronavírus (Covid-19).

A preocupação das lideranças é em relação à vulnerabilidade imunológica dos povos indígenas e à falta de estrutura de equipamentos de saúde para atender casos suspeitos da doença nas comunidades.

Um dos líderes do Parque Nacional do Xingu, Mutua Mehinaku, da etnia Kuikuro, disse à Amazônia Real que todas as aldeias receberam orientações sobre o coronavírus e que os indígenas estão muito preocupados com a situação do contágio da doença respiratória.

"Está todo mundo de quarentena. Ninguém quer sair da aldeia", disse Mutua Mihinaku.

Como divulgou a reportagem, a Associação Terra Indígena do Xingu (Atix) desenvolveu uma cartilha com orientações de prevenção ao coronavírus e já tinha planejado uma quarentena voluntária. Mutua afirmou que todas as aldeias possuem postos de saúde, mas que a estrutura de atendimento "é mais ou menos".

"Temos um avião, custeado pelo governo federal, que fica na cidade de Canarana. Se precisar de alguma urgência, ele chega na aldeia em 40 minutos", disse Mutua.

No Mato Grosso há uma população de 42 mil indígenas, conforme o último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010. Segundo o Instituto Socioambiental (ISA), esses povos tradicionais estão distribuídos em 40 etnias.

Só no Parque Nacional do Xingu, no nordeste do estado, vivem cerca de 7 mil indígenas, distribuídos em mais de 100 aldeias e 16 etnias:  Aweti, Ikpeng, Kaiabi, Kalapalo, Kamaiurá, Kisêdjê, Kuikuro, Matipu, Mehinaku, Nahukuá, Naruvotu, Wauja, Tapayuna, Trumai, Yudja, Yawalapiti.

Mutua Mehinaku, de 40 anos, destacou que outra medida foi tomada pelas mulheres artesãs. Elas suspenderam as viagens que estavam planejadas para São Paulo, onde iriam  divulgar seus trabalhos.

"É comum algumas indígenas fazer esse tipo de excursão, mas diante da pandemia do coronavírus elas decidiram permanecer nas aldeias", contou o líder, que é mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

No estado do Mato Grosso, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde, trabalha com os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dsei´s) Araguaia, Cuiabá, Kaiapó (MT), Xavante e Xingu.

Na terça-feira (17), a Sesai divulgou em seu site o Plano de Contingência Nacional para Infecção Humana pelo novo Coronavírus (Covid-19) em Povos Indígenas. No documento, a secretaria faz um histórico clínico e sanitário dos povos indígenas e lembra da vulnerabilidade deles frente a contágios. Mas muitas organizações indígenas não tiveram acesso ao documento, que está disponível no site da instituição. No entanto, a maior parte das aldeias não tem internet.

O plano da Sesai foi divulgado após o Ministério Público Federal instaurar um procedimento para apurar as medidas que o governo federal está implementando junto aos povos indígenas e comunidades tradicionais, que incluem também os ribeirinhos e quilombolas.

O MPF notificou a Sesai, a Fundação Nacional do Índio (Funai), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Fundação Palmares, Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam) e Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amazonas (Sema) depois que a reportagem da Amazônia Real publicou que as organizações indígenas do país estavam tomando, por conta própria, as providências para impedir a disseminação da doença nas aldeias.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Operação Amazônia Nativa (Opan) anunciaram que suspenderam todas as atividades externas nas aldeias do Mato Grosso para evitar o contato direto com os indígenas.

"Essa doença pode ser uma arraso para os indígenas. Porque se essa epidemia sai do controle e chega até as aldeias, não há estrutura de saúde para isso. Por isso cancelamos todos as nossas agendas", ressaltou o coordenador executivo da Opan, Ivar Busatto.

Ele ressaltou que a vulnerabilidade dos indígenas é muito grande devido à falta de imunidade. No entanto, ponderou, os indígenas têm um trunfo, que é ficar dentro das aldeias. "Se eles não saírem não tem contágio. Está na mão deles um controle maior da doença".

O coordenador da Opan também produziu vídeo alertando os indígenas de Mato Grosso sobre os riscos que uma epidemia poderia provocar nas aldeias, assim como aconteceu em situações anteriores envolvendo doenças como o sarampo e a tuberculose.

Em Mato Grosso, a Opan realiza trabalhos com as etnias Xavantes, na Terra indígena Marãiwatsédé, no extremo Nordeste do estado; os Parecis e Nhambiquaras, no município de Sapezal, ao Sudeste; os Manokis e os Rikbaktsa, na região de Juruena, ao Noroeste do estado.

Além de suspender as entradas de equipes nas aldeias, o coordenador do Cimi no Mato Grosso, Gilberto Vieira dos Santos, destacou que a entidade está em contato direto com profissionais de saúde local e as lideranças indígenas para monitorar possíveis casos da doença Covid-19.

Ele comentou que o combate a notícias falsas (fake news) deve ser constante. Ainda segundo ele, recentemente, surgiram boatos de um indígena infectado em uma das aldeias em que o Cimi atua. "Rapidamente, entramos em contato com os indígenas no local e verificamos que a informação não procedia".

Gilberto disse que o Cimi, normalmente, tem entrado em contato com os indígenas através de meios virtuais. E as orientações têm sido expressas para que eles não se desloquem às cidades e evitem a entrada de não indígenas nas aldeias.

A falta de estrutura de saúde também preocupa o indigenista, já que as políticas públicas de assistência social aos indígenas ficaram ainda mais precárias no governo Bolsonaro.

"O que a gente percebe é um aprofundamento no processo de desestruturação no atendimento de saúde aos povos indígenas, principalmente com o orçamento federal para área que não vem sendo executado", disse.

Gilberto Vieira dos Santos enfatizou que, atualmente, já faltam insumos e medicamentos nas aldeias, como remédios para febre e xarope para tosse. "Se já temos dificuldades no atendimento paliativo, haverá uma grande carência em casos emergências", alertou.  No Mato Grosso, o Cimi atua em trabalhos sociais com os Xavantes, Myky e os Enawenê-Nawê, todos na região noroeste do estado.

Fonte: Agência da Notícia



Por Olhar Cidade 19/03/2020 07:50:00

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